Moda

Rana Plaza e a indústria da moda: por que precisamos repensar nosso consumo?

| 24 de abril de 2019

Alguns meses atrás, eu assisti ao documentário The True Cost na Netflix. Aquilo abriu minha cabeça para várias questões relacionadas à sustentabilidade na moda e, principalmente, aos meios de produção nessa que é uma das mais lucrativas indústrias do mundo.

Em vários momentos, o documentário aborda a tragédia de Rana Plaza, quando um desabamento de prédio em Bangladesh deixou mais de mil mortos em abril de 2013. Agora, exatamente seis anos após o desastre, li um texto publicado no site Business of Fashion que me fez pensar ainda mais sobre os riscos dessa indústria. Apesar de ser de fevereiro deste ano, decidi traduzi-lo e compartilhar aqui, de forma que vocês possam ter essa reflexão também e para repensarmos juntos nosso consumo.

Seis anos após Rana Plaza, segurança de trabalho está ameaçada em Bangladesh de novo

Seis anos atrás, o desabamento de uma fábrica em Rana Plaza matou mais de mil pessoas, empurrando violentamente a questão das condições de trabalho na indústria da moda de Bangladesh para o cenário global. Agora, a iniciativa emblemática da indústria para melhorar a segurança do trabalhador corre um perigo iminente de perder o equilíbrio no país, mesmo com milhares de trabalhadores do setor enfrentando desemprego e ações legais por protestos contra baixos salários.

A situação destaca a tensão contínua entre a demanda do mundo ocidental por produtos baratos e a demanda crescente por processos de fabricação mais éticos e sustentáveis. A cada ano, cerca de 30 bilhões de dólares em roupas deixam Bangladesh com destino a lojas como H&M e Zara. Essas marcas e muitas outras têm apoiado ativamente iniciativas para melhorar os direitos e a segurança dos trabalhadores. No entanto, Bangladesh continua sendo um importante centro de fabricação. Se as condições se deteriorarem, não há muitas alternativas que possam corresponder à produção do país em volume ou preço.

“Desde Rana Plaza, o abastecimento de Bangladesh só continuou a crescer”, disse Liana Foxvog, diretora de campanhas do Fórum Internacional dos Direitos Trabalhistas. “O governo pode pensar que, visto que as marcas mantêm as fontes daqui, parece que elas não se importam com os direitos dos trabalhadores, apesar do que dizem publicamente”. 

No rescaldo do desastre de Rana Plaza, os varejistas norte-americanos e europeus enfrentaram uma pressão sem precedentes de consumidores e ativistas para encarar as condições muitas vezes miseráveis ​​dos trabalhadores que fazem suas roupas. Mais de 200 marcas juntaram-se a sindicatos para formar duas organizações que criaram compromissos juridicamente vinculativos para garantir a segurança dos trabalhadores. Essas iniciativas, conhecidas como Accord on Fire and Building Safety in Bangladesh e Alliance for Bangladesh Worker Safety, conseguiram consertar cerca de 90% dos problemas originalmente encontrados nas fábricas que eles cobrem. Mas eles também foram destinados a ser temporários. O Alliance encerrou suas operações no ano passado, entregando suas responsabilidades aos parceiros locais; já o Accord foi estendido para 2021. Mais de 190 marcas, em grande parte europeias, assinaram a extensão, mas enfrentam uma crescente oposição do governo de Bangladesh e dos proprietários de fábricas.

Em maio de 2018, um tribunal superior decidiu que o Accord poderia permanecer no país por apenas mais seis meses. Eles recorreram da decisão e o caso se arrastou. Em fevereiro de 2019, uma divisão da suprema corte do país concedeu ao Accord outro adiamento, postergando o caso para 7 de abril. Mas a incerteza sobre o futuro da organização levantou preocupações de que os ganhos de segurança obtidos nos últimos anos poderiam ser revertidos. “O que foi alcançado tem sido lento, mas é um progresso de mudar o jogo”, disse Aruna Kashyap, conselheira sênior da divisão de direitos das mulheres da Human Rights Watch. “O governo está no precipício de desfazer tudo por causa dessa oposição política ao Accord.”

Os anos se passaram sem outro grande incidente, então a situação dos trabalhadores do setor de vestuário de Bangladesh sumiu da consciência dos consumidores ocidentais. Enquanto isso, a demanda por moda barata e rápida de Bangladesh só continuou a crescer. Entre 2010 e 2017, a participação do país nas exportações globais de vestuário aumentou de 4,2% para 6,5%, segundo a Organização Mundial do Comércio. Ao mesmo tempo, entre 2011 e 2016, as margens de lucro nas fábricas de fornecedores em Bangladesh caíram cerca de 13%, segundo um relatório publicado no ano passado pela Pennsylvania State University. Isso contribuiu para uma diminuição nos salários reais e aumento das violações dos direitos dos trabalhadores desde o desastre do Rana Plaza, com exceção das melhorias de segurança graças ao Accord

Milhares de trabalhadores foram demitidos nos últimos meses depois de protestar contra mudanças no salário mínimo do país. Muitos também estão enfrentando ações legais movidas por proprietários de fábricas, segundo representantes sindicais. Empresas que operam no país disseram que estavam trabalhando com sindicatos para investigar e resolver os problemas recentes. A ameaça ao Accord e as questões em torno dos salários são “como duas batalhas paralelas que estamos combatendo ao mesmo tempo”, disse Kalpona Akter, fundador e diretor executivo do Bangladesh Centre for Worker Solidarity, uma organização de direitos trabalhistas.

Representantes do governo não responderam aos pedidos de comentários. Bangladesh pediu que sua própria unidade de vigilância substituísse o Accord, levando o regulamento de segurança de volta às mãos do governo. Embora os padrões de segurança tenham melhorado significativamente desde 2013, o Accord afirma que seu trabalho ainda não está concluído. Por exemplo, apenas 49% das fábricas da Accord que tinham sistemas de incêndio inadequados durante as inspeções iniciais instalaram sistemas compatíveis de detecção e prevenção. De acordo com o Fórum Internacional dos Direitos do Trabalho, cerca de 40 pessoas morreram em consequência de incêndios e incidentes relacionados nas fábricas de roupas de Bangladesh desde 2013. Negociações que permitiriam uma transição gradual das responsabilidades do Accord para o governo até agora não resultaram em um acordo.

“As marcas deixaram claro em várias ocasiões que o fechamento prematuro do Accord em Bangladesh faria com que reconsiderassem as posições de abastecimento e colocassem em risco a reputação de Bangladesh como um país seguro”, disse o vice-diretor do Accord, Joris Oldenziel. Nos bastidores, as empresas têm pressionado por uma solução e se esforçam para implementar medidas para proteger seus negócios. 

Embora haja amplo consenso, o governo deve eventualmente assumir a responsabilidade de monitorar os padrões de segurança, mas observadores do setor dizem que o governo não possui a equipe ou infraestrutura qualificada para assumir o controle. A repressão aos trabalhadores que protestam contra mudanças no salário mínimo também levantou questões sobre seu compromisso com a proteção dos direitos dos trabalhadores.

Sérias questões trabalhistas, como as de Bangladesh, estão se tornando uma crescente responsabilidade, já que as empresas enfrentam cada vez mais pressão de consumidores, investidores e governos para mostrar que estão mantendo padrões éticos em suas cadeias de fornecimento. Muitas marcas dizem que estão tentando agir com mais responsabilidade, inscrevendo-se em iniciativas do setor que apoiam os direitos dos trabalhadores, mas na esteira da recente repressão em Bangladesh, alguns acham que não foram proativos o suficiente para proteger as pessoas que fazem suas roupas.

Se o Accord for eliminado, poderá ser um verdadeiro teste para o compromisso das marcas com a ação. Nos últimos cinco anos, a sua supervisão tornou-se um dos pilares da licença social de muitas marcas para operar em Bangladesh. Se não puder continuar as operações no país, centenas de fábricas que foram sinalizadas por violações de segurança podem perder o direito de fazer negócios com marcas ocidentais em questão de meses. “Se o Accord for jogado fora do país e essa repressão continuar, não acho que isso trará algo bom para a indústria”, disse Akter.

Encerro esse post com um vídeo super explicativo da Nátaly Neri. Assistam e retornem aqui para debatermos ainda mais o tema 🙂

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